Concurso. XXXIII. Lugar

PSEUDÓNIMO: Laime
CATEGORÍA: Relatos
TÍTULO: Lugar

LUGAR

Umha mulher olhava cara ao horizonte. Horizonte claro, azul ou rosado ou escuro, preto de tormenta. E, no entanto, meditava. Ela nunca saíra dali, daquele pequeno lugar, e por isso nom sabia por quê o céu mudava de cor. Os novos marchavam, e, se volviam, porque alguns ficavam ali aonde iam, sabiam-no, como sabiam muitas outras cousas. Os novos voltavam contando histórias de cidades douradas, de guerras e tratados de paz, de estrelas e doutros mundos, mundos em que as ilhas aboiavam no ar, em que moravam joaninhas enormes, ou hominhos pequenos, ou falcões com quatro asas, ou mesmo grandes lagartos voadores. A ela tanto lhe tinha se as luitas entre grandes nações começavam ou rematavam, se a ciência prosperava ou nom, se se descobriam outras civilizações. Tanto tinha, aquele lugar não mudava, aqueles rebanhos que pasciam na erva amamentada pola chuva teimosa. Os novos traziam-lhes soluções para a escassez, outros lugares aos que irem viver, urbes prósperas ou luas desconhecidas, lugares de riqueza e fartura. Mas eles estavam afincados naquela terra, a única terra que conheceram Os novos pensavam, nom se pode fazer nada com estes, forom ignorantes sempre e sempre o ham ser, quê saberám do que há aí fora, fora destes valados desdentados e destas eiras esgotadas. Tudo estava envelhecido ali.

A mulher ajoelhou-se a modinho e apanhou umha presada de terra. Observou-a em silêncio. Esses que voltavam, com os miolos tam cheios de sonhos afastados, de desejos doutro mundo, nom lembravam o nome dos pequenos vermes e toupeiras que viviam daquela terra, de cada um deles, como sabia ela. Também nom sabiam como acalmar as bestas. Nom lembravam já as velhas palavras, aquelas que davam nome a cada cova, a cada árvore, a cada classe de chuva ou de vento.

Cada ano morava menos gente naquele lugar antigo. Quase ninguém se ocupava já das bestas, nem de arranjar os telhados, nem de roçar a fraga. Uns porque estavam cansados de trabalhar tantos invernos e precisavam folgar. Outros porque já nom estavam. Chovia. A mulher começou a desandar o carreiro, de volta ao seu lar. O seu filho marchara quando era mui rapaz ainda, prometendo voltar. Isso fora dez anos e muitas cartas antes. A mulher pensou que havia algo de errado naquilo e deixou escorregar umha lágrima pola sua face enrugada.

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